Contestações
Pix — MED
O Mecanismo Especial de Devolução existia. O fluxo existia. Mas não existia uma experiência que traduzisse isso para o usuário. Em uma jornada de fraude ou golpe, incerteza não é só fricção — é sofrimento. O desafio era transformar uma obrigação regulatória em um ponto de confiança.
Uma funcionalidade obrigatória que não chegava ao usuário.
O Mecanismo Especial de Devolução — MED — é a ferramenta que o Banco Central criou para que usuários contestem transações Pix em casos de fraude, golpe ou falha operacional. Obrigatória para todas as instituições que operam Pix, ela já existia no produto.
O problema estava em como existia: como uma funcionalidade técnica, sem experiência. Usuários que vivenciavam o pior momento de sua relação com a plataforma — vítimas de golpes — chegavam a um fluxo que não explicava o processo, não sinalizava prazos, não dava retorno sobre status e os deixava com uma única opção: ligar para o suporte.
Internamente, o quadro era igualmente crítico: interpretações divergentes do processo entre áreas, fluxos fragmentados e pouco padronizados, risco real de não conformidade regulatória e alto volume de tickets relacionados ao tema.
A dor era dupla — e tinha custos diferentes para cada lado.
A análise revelou uma desconexão crítica entre a regra, a operação e a experiência. O MED existia como processo. O que não existia era uma experiência que traduzisse esse processo para o usuário em um momento de alta vulnerabilidade emocional.
- Não sabia quando o MED se aplicava ao seu caso
- Expectativa desalinhada sobre prazos de devolução
- Sensação de abandono após abrir uma contestação
- Dependência total de suporte para qualquer acompanhamento
- Ansiedade e insegurança em um momento já crítico
- Alto volume de tickets com uma pergunta recorrente: "Qual o status?"
- Custo operacional de suporte crescente
- Interpretações divergentes do processo entre áreas internas
- Risco real de não conformidade com o BACEN
- Impacto negativo no NPS em um momento sensível
O problema não era a ausência de funcionalidade — era a ausência de compreensão. O MED já existia. O fluxo já existia. Mas não existia uma experiência que traduzisse isso para o usuário.
Substituir a sensação de abandono por acompanhamento contínuo.
O objetivo central era redesenhar a jornada do MED garantindo aderência total às diretrizes do Banco Central — e, ao mesmo tempo, aumentar transparência, autonomia e confiança sem elevar o custo operacional.
Em termos concretos, isso significava que o usuário precisava ser capaz de:
- Entender se seu caso era elegível para o MED antes de iniciar qualquer processo.
- Saber exatamente em qual etapa a contestação se encontrava — sem precisar ligar.
- Ter previsibilidade sobre os próximos passos e os prazos envolvidos.
- Consultar o histórico completo de suas contestações a qualquer momento.
Design de ponta a ponta em um fluxo crítico e regulado.
Atuei como designer responsável pelo redesenho completo da jornada do MED — desde a fase de descoberta até a entrega das duas versões do produto (MVP e V2).
O trabalho exigiu atuação próxima com a área jurídica e de compliance para garantir aderência regulatória, com a equipe de operações para entender os gargalos de suporte e com engenharia para viabilizar o sistema de consulta em tempo real que se tornou o diferencial do projeto.
Duas frentes simultâneas: o fluxo e o que vem depois.
O projeto foi estruturado em duas frentes complementares. A primeira era óbvia: simplificar e estruturar o fluxo de abertura de contestação. A segunda — e mais estratégica — era criar um sistema de acompanhamento que mudasse a relação do usuário com o processo depois que ele se iniciava.
Mapeamento do fluxo existente e identificação de gaps
Análise do processo atual, entrevistas com equipe de suporte para entender os motivos de contato recorrentes e leitura das diretrizes do BACEN para o MED.
Triagem dos casos de uso elegíveis
Distinção clara entre fraude/golpe e falha operacional. Definição de regras de elegibilidade comunicáveis — o prazo de 80 dias, as exceções, os casos não cobertos — de forma que o usuário entendesse antes de iniciar.
Redesenho do fluxo de abertura
Padronização de linguagem, triagem guiada e envio estruturado de dados ao BACEN. Clareza sobre prazos, etapas e elegibilidade antes de qualquer comprometimento do usuário com o processo.
Criação do sistema de acompanhamento em tempo real
A decisão estratégica mais importante do projeto: em vez de uma tela estática de "aguarde", criar um hub de acompanhamento com status progressivo, histórico centralizado e consulta em tempo real diretamente no app.
Validação com equipes de suporte e conformidade
Revisão do fluxo com as áreas de atendimento e jurídico antes do lançamento. Garantir que a experiência não criava ambiguidade regulatória enquanto reduzia a dependência de suporte humano.
O usuário deixou de abrir um chamado e esperar — e passou a acompanhar um processo com clareza.
A solução foi entregue em duas versões evolutivas:
Contestação integrada ao extrato Pix
Fluxo de contestação acessível diretamente a partir da transação no extrato. Triagem guiada entre tipos de caso, comunicação clara de elegibilidade e prazos, padronização de linguagem. Redução imediata de fricção para o usuário em situação crítica.
Hub de Contestações — "Minhas Contestações"
Área dedicada com status progressivo e detalhado de cada contestação em andamento, histórico centralizado de todas as solicitações e consulta em tempo real. O usuário passa a ter visibilidade completa do processo sem precisar contatar o suporte.
A consulta em tempo real foi a decisão estratégica mais importante do projeto por três razões: transforma um processo invisível em algo rastreável, elimina a principal razão de contato com suporte — "Qual o status da minha contestação?" — e substitui a sensação de abandono por acompanhamento contínuo.
Em jornadas financeiras críticas, transparência não é diferencial — é requisito.
Para o produto, o MED deixou de ser apenas uma exigência regulatória e passou a ser um ponto de confiança na experiência do usuário. Uma funcionalidade que precisa existir se tornou uma funcionalidade que demonstra responsabilidade — e isso tem valor de retenção.
Para o negócio, a padronização interna do processo reduziu riscos de conformidade e criou uma operação mais previsível. A fila de suporte relacionada ao tema caiu de forma consistente com o lançamento do hub de acompanhamento.
Confiança não é consequência. É produto.
- O pós-ação é tão importante quanto a ação em si. Redesenhar o fluxo de abertura foi necessário — mas o maior impacto veio de resolver o que acontecia depois: a incerteza sobre o status.
- Em contextos de fraude, comunicação proativa é um produto. O usuário não quer só resolver o problema — quer saber que alguém está trabalhando para resolvê-lo. Visibilidade de processo tem valor emocional direto.
- Regulatório e experiência podem — e devem — ser aliados. Aderir ao Guia de UX do BACEN não foi uma restrição: foi um ponto de partida que organizou as decisões e reduziu o escopo de ambiguidade.
- Suporte é o sinal de que o produto falhou em comunicar. Cada chamado com a pergunta "qual o status?" era um dado de design: o produto não estava entregando informação suficiente no momento certo.
"Em jornadas financeiras críticas, transparência não é diferencial — é requisito. E confiança não é consequência. É produto."
— Aprendizado estratégico do projetoVer outros projetos
Quatro cases do setor financeiro — cada um com um problema diferente.